Sábado, 15 de Agosto de 2009

Ei, me arruma um cigarro, não tenho vergonha de ser só mais um viciado.

É gelado, não frio.
O cheiro é forte, mas não é esgoto, é verde, é mato. O córrego cerca meu bairro, como uma ilha, e é nessa ilha onde você compra alegria. Prefiro o pino -  farinha, o pó.
A noite nos beijava a boca e nos convidava para sair, vadiar. Encontrei meus amigos já na beira do rio, e um deles me sorrio, jogando a real : “Não vou mentir para você, dei um tiro ali, mano, e vamos ficar loucos a noite inteira.”.Estávamos em quatro, e tive a certeza de que não ficaria lúcido por muito tempo. Nem consciente. Essa coisa de uso recreativo é uma besteira, então, cheirei com tudo, até adormecer as narinas e sentir os olhos vidrados. O coração batendo forte, furando o peito, enfim vivo.
A ideia era jogar sinuca e depois ver o que faríamos. Duas ou três fichas se foram, junto com muitos cigarros, seguidos, é fácil jogar, não importa quem ganha ou quem perde, nem quem é parceiro ou quem é rival, são todos irmãos, todos na mesma canoa.
O bar fechou, caminhamos para o centro da cidade, imaginando o que a cidade reserva para nós. Não antes de darmos o próximo tiro. Comigo a segunda nunca faz efeito, ou aparenta nunca fazer efeito, só dor de cabeça. Me afastei então enquanto os outros preparavam mais três carreiras, e observei o que acontecia ao meu redor. Estávamos em cima de uma passarela, no escuro, como marginais, como nóias ( como costumamos definir os de pior situação, sujos pelos becos, deitados em suas próprias fezes, com seringas ou cachimbos nas mãos ).Lá embaixo um casal discutia, a garota gritava e tentava correr, enquanto o garoto a segurava. A coca começou a fazer efeito, então eu me sentia um agente secreto, observava as sombras, a posição de cada nóia ao meu redor, cada vizinho que poderia me caguetar, tudo fica claro com a coca, e eu me sinto um agente secreto. Chamei meu colega depois que ele mandou a carreira dele para dentro, e perguntei se agente devia descer e ver o que estava acontecendo com o casal, se o cara estava tentando machucar a menina ou coisa parecida. Quando éramos mais moços bancávamos os bons samaritanos, e até corremos atrás de um ladrão que testemunhamos roubar a bolsa de uma mulher, só pelo orgulho de parecermos heróis. Não o alcançamos, naturalmente, e talvez eu nem desejasse isso, não sou bom com essas coisas de sair na mão, muito menos com bandido. Mas dessa vez, meu amigo se deteve a dizer que provavelmente se tratava de alguma vagabunda. Eu pensei “Foda-se.” e desci sozinho, correndo, ver o que estava acontecendo. Quando eu desci, algumas pessoas que passavam pela rua estavam parando junto ao casal também, e o garoto, segurando a menina, abraçando-a bem forte, explicava que não a conhecia, mas que ela estava correndo em direção á uma passarela que estava a uns dez metros, que corta o rio Tietê. Ela gritava que queria se matar. Ela continuava chorando e gritando que ia acabar com a vida, e tentava se chocalhar, desesperada, em direção á rua onde passava vários  carros. Me senti mal por meu colega ter julgado a situação, mas no estado que estávamos não faríamos muita coisa mesmo, provavelmente, nem notaríamos se ela pulasse. Nessa mesma semana, nessa mesma passarela, um cara acabou pulando, e havia muitas viaturas e bombeiros procurando o sujeito, ou o que havia sobrado dele. É como se todos estivessem tentando fugir dessa nossa ilha.
Por outro lado, nós abraçamos a diversão, a nossa vida, com todas as forças, como se pretendessemos estar com todos os sentidos ligados, á mil por hora, com tudo que nossos trocados podem oferecer. Voar com as asas que os urubus nos dão durante o dia. Confesso, porém, que a partir daí lembro de muita pouca coisa daquela noite, mas lembro de procurar novas passarelas, novos cantos escuros, e cheirar até o pó acabar. Talvez não seja a questão de não lembrar, provavelmente, não fizemos mais nada além disso. Terminamos a noite, no mesmo lugar, na beira do rio, a beira gélida e com cheiro verde. Resolvi ir para casa, o pó havia terminado e não tinha nada a ser feito. Os meninos tinham mais alguns reais e foram trocar por mais pinos. Me despedi, moro perto da boca, mas não gosto de ir até lá, fico com o cu na mão imaginando que os gambés vão surgir a qualquer momento, ou vai acontecer uma chacina doida a qualquer hora lá. Entrei, tranquei o quarto e acendi um baseado que estava na minha gaveta ha mais de uma semana.
Observando a sombra do abajur, imaginei dragões brancos deslizando pelas paredes.

sinto-me:
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descrataquizado por oddie às 14:52
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